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| Paulo
chegou em casa com um embrulho e o colocou em cima do armário. Disse para a sua mulher que não o abrisse em nenhuma hipótese. Mara não respondeu. Arrumou-se e ao seu bebê. - Já vai para a rua? E ainda vai levar a Natália? Ela só tem um mês. Aonde vai agora? - Eu não perguntei o que era o embrulho, você também não tem que perguntar nada. Ela nem parecia aquela menina meiga que ele conhecera quando ainda eram crianças. Desde então sempre fora completamente apaixonado por ela. Paulo não se conformava com a mania da mulher de levar a criança recém-nascida para todos os lugares. Achava que ela fazia isso só para irritá-lo. O casamento ia mal desde antes de ela ficar grávida. Ela ainda o culpava por tê-la engravidado. Achava que fora de propósito para prendê-la. Disse-lhe, em vão, mil vezes que fora acidental e ouvira dela a mesma ladainha: - Você fez isso só para me prender. Ninguém me prende não. Sou igual a passarinho. Nasci para ser livre. Já teve homem que quis me colocar numa gaiola melhor que essa e eu fugi. Imagina você com essa meia água no fundo do quintal dos seus pais aqui em Acari? Qualquer dia não vai me ver nunca mais. Vou embora e levo a minha filha. -A sua filha não. A nossa filha disse Paulo. - Pode garantir que é sua? A mãe pode afirmar que é a mãe, o pai só pode ter certeza se fizer um teste de paternidade. - Então vamos fazer. - Não vou permitir que tirem sangue da minha filhinha. Você não a ama? Como é que quer vê-la espetada? - Quem não tem amor por ela é você que a leva, com menos de um mês, para a rua. - Você não registrou a Natália? Então você é o pai e pronto. Chega de conversa. Fui. Dizendo isso bateu a porta e saiu. Paulo ficou remoendo. Seu amor virava ódio. Saiu também. Na rua telefonou para um gay que havia conhecido. Precisava esfriar a cabeça e essa era a sua única alternativa. - Está de bobeira? Posso ir até a sua casa? Paulo queria espairecer. Precisava conversar com alguém para não explodir. Trabalhava no estoque de uma sapataria numa sala sufocante e sem janelas. Não tinha com quem falar. Foi. Bateram papo, beberam, transaram e ainda ouviu conselhos de como deveria proceder para viver melhor com a sua mulher. Acabou dormindo e perdeu a hora. Mara chegou e foi direto ao embrulho. Muito bem lacrado, com fitas adesivas sobre um grosso papel pardo, não deixava transparecer o que continha. Chamou o seu amante policial que morava na casa ao lado e que chegou pelo quintal para não ser visto. - O que você acha que tem nesse embrulho? Perguntou ela. Após examiná-lo, Jorge concluiu que devia ser maconha. Aqui no canto está escrito Colômbia e senti cheiro de maconha. É uma oportunidade para agente se livrar dele. - Armo um flagrante e ele vai em cana. Mara concordou. Paulo chegou e foi direto para o banho com um certo complexo de culpa. Estava sob o chuveiro quando bateram à porta e invadiram a sua casa três policiais, um repórter e um fotógrafo de um jornal sensacionalista. -Flagrante de drogas, falou um policial. Tenho um mandato. Mostrou um papel e o colocou rapidamente no bolso. Paulo sem entender nada, enrolado numa toalha, viu os policiais irem direto para o seu quarto e pegarem o embrulho. - O que é isso? O que é isso? Perguntaram para ele? - Isso... Isso... É uma coisa que eu comprei. - Que coisa? Vamos! Responda logo! - Isso... Isso.. É uma surpresa. - Uma surpresa para quem? Para os traficantes? Para a mãe dos meninos que vão morrer de tanto usar essa droga? - Droga? Que droga? Perguntou Paulo para os policiais. - Não se faça de inocente disse-lhe um policial dando-lhe um bofetão. A toalha caiu. - Por isso que ela não gosta dele. Isso aí é uma tripinha ironizou um policial. - Crioulo safado disse o outro. - Paulo era negro e sua mulher era branca. - Como é que uma moça branca, tão bonita casa com um negro traficante de merda como esse? Mara ficou toda vaidosa e perguntou para o policial: - O senhor acha mesmo que eu sou bonita? - Claro minha flor. Você não tem espelho? - Vai devagar disse um policial para o outro. Ela é comida de um colega. - Comida de quem? Perguntou Paulo? - Do Jorge, teu vizinho, otário. - Isso aí não pode escrever jornalista. Senão não sai mais com agente, disse um policial. - Porque contou? Perguntou Mara para o policial. - Porque esse babaca vai ficar preso muitos anos. Não faz a menor diferença. O fotógrafo estava se esbaldando. Tirara fotos de Paulo com e sem a toalha. O repórter já estava pensando na matéria. Flagrante de drogas em Acari. Negão com pau de menino escondia maconha em cima do armário. - Abre logo essa merda!, disse um policial para outro que foi logo rasgando com violência o embrulho. - Mas, o que é isso? De dentro do embrulho apareceu uma fantasia de colombina. - Eu falei pros senhores que não era droga. Era uma surpresa que eu ia fazer para a minha mulher no carnaval, disse Paulo. - Corno. Isso é coisa de corno. Vamos embora que o flagrante era falso. Saíram. - Você acha que eu ia usar essa coisa ridícula? Por isso que vou ficar com o Jorge. Além do mais ele tem o que você não tem. - Humilhado, Paulo não teve coragem de perguntar. Perdera a dignidade, a mulher e ainda dera uma grana para o fotógrafo para ficar com o filme que nunca mandaria revelar. Por sorte sua, os policiais não viram um cigarro de maconha que estava num bolsinho da fantasia. Era onde o escondia o funcionário da loja que não teve tempo de pegá-lo. Nervoso, escreveu colômbia em vez de colombina, do lado de fora do embrulho, bem pequeno, para ser visto pelo seu colega no balcão de entregas. Quem gostou foi o gay que se realizou no carnaval com a fantasia de colombina. |
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