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Todos
os dias aquele grupo de moças pegava o mesmo carro do metrô
para irem trabalhar. Com o tempo ficaram amigas. Passaram também
a se encontrar em outras ocasiões. Quando faziam reuniões
em suas casas umas convidavam as outras. A volta do trabalho passou também
a ser um momento de encontro. Sempre que podiam umas esperavam as outras
para voltarem juntas.
Gostavam de comentar sobre as demais pessoas que também costumavam embarcar no mesmo horário. Algumas ganharam apelidos. Tinha a Tia Nana, uma velhinha que parecia com uma antiga personagem de Jô Soares, o Pafúncio que lembrava o personagem das histórias em quadrinhos, a Olívia Palito, que nos quadrinhos era a namorada do Popeye, o Lula e tantos outros. Mas o que mais lhes despertava a atenção era um bonito rapaz que costumava sentar nos bancos laterais e ficar o tempo todo admirando a sua imagem refletida no vidro da janela. Uma delas o batizou de Dorian Gray em homenagem ao personagem do livro de Oscar Wilde, O Retrato de Dorian Gray, que era tão vaidoso a ponto de vender a sua alma para nunca envelhecer. O interessante é que sendo ele o alvo preferido da admiração do grupo feminino, praticamente nunca demonstrara ter notado a presença de qualquer uma delas. Até apostas já haviam feito para ver quem conseguiria conquista-lo. Certa vez uma deu-lhe um esbarrão para ver se conseguia puxar conversa. Nada. De outra feita uma das meninas deixara cair um embrulho no seu colo. Algumas já estavam ficando até perdidamente apaixonadas por ele. Qual seria o seu nome? Conjeturavam sobre tudo. Seria casado? Teria filhos? Onde trabalhava? Combinaram que seria seguido. Marcaram a data da investigação. Uma ou duas delas conseguiria uma folga no dia combinado para que nada desse errado. Só que naquele dia ele não apareceu. Nem naquele nem nunca mais. Algumas ficaram profundamente deprimidas. As mais sonhadoras criaram verdadeiras histórias. Para algumas teria sido transferido. Para outras ficara desempregado. Quem sabe vítima de bala perdida? No universo abstrato da imaginação enamorada até o menos provável passa a ser possível. O desaparecimento coincidiu com a criação do que seria o Fã-Clube Dorian Gray. Iam fazer uma festa num sábado em casa de uma delas e iam convida-lo para ser enfaixado com um título maluco que uma delas criara tipo personagem do ano do grupo. A
frustração foi geral. Algumas choraram. Teve uma que ficou
até de cama por uns dias. Onde estaria aquele rapaz? Alguém
lamentou não terem tirado uma foto dele com uma dessas minúsculas
câmaras digitais. Agora seria só publicar uma foto dele nos
jornais. Resolveram então que iriam a polícia pedir para
fazer um retrato falado. Alguém perguntou: sobre que alegação?
A idéia não foi adiante. O assunto rendeu. Foi o preferido
do grupo durante muito tempo. Até que foi sendo cada vez menos
lembrado e caiu no esquecimento. Um dia uma delas perguntou para as demais:
-Lembram do Dorian Gray? - Claro, responderam todas. Como poderiam esquece-lo?
Disse então quem perguntou: - A foto dele foi publicada hoje no
jornal. Sob a foto, na coluna do obituário, vinha o nome dele de
batismo, o seu nome artístico: Marilyn e a notícia do seu
falecimento. Após longa internação ele, que era cabeleireiro
e conhecido transformista, falecera de AIDS. |
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