| Imagine
aquele homem silencioso, todos os homens silenciosos são perigosos,
que passa a mão no lençol e sente o vazio. Que acorda no
meio da noite e não encontra a esposa ao lado na cama. A mãe
dos seus filhos. Aquele homem sonolento que levanta em direção
ao cadê e fingindo ir ao banheiro encontra na Internet a mulher
conversando com um amigo jornalista do Rio de Janeiro. Esse homem também
é carioca. Conhece a má fama dos cariocas. Com perspicácia
capta a identificação de idéias da mulher que também
é escriba. De nada adiantam as suas juras de amor. As suas demonstrações
de fidelidade ao marido. A semente da invasão começa a germinar
em seus domínios. Mata-se a cobra enquanto está no ovo.
A serpente é o símbolo da sua profissão e o rubi
vermelho sangue a pedra do anel de dentista. A partir daí, feito
um fermento, começam a crescer as suas conjecturas. Idéias
viram obsessão e o que era intenção materializa-se
em ação exterminadora do indivíduo. Nada ficará
entre ambos que lhe tire um só segundo de companhia do seu amor
a quem tanto admira. Tem que ser perfeito. Será no dia de um aniversário.
A festa será o álibi. Quando a vela do bolo for apagada,
será exterminada uma vida. Por isso vai à chapada contratar
um profissional que não o conheça. Será o intermediário
para contratar outro profissional no Rio de Janeiro que apertará
o gatilho. A foto da vítima está na Internet. O jornalista
sai de casa despreocupado e é abordado por um homem que lhe pergunta
as horas ou pede uma informação. Antes que dê por
si, uma bala atravessa o seu coração. O silenciador não
deixa fazer barulho. O assassino sai. A vitima cai. Mais um bêbado
pensará quem passa. Distante, acende-se a luz da vela do bolo.
Na calçada apaga-se a última centelha de vida. Todos riem
e cantam parabéns. A vida continua. Falta apenas voltar ao chapadeiro
para eliminar o intermediário e depois quem lhe apresentou ao intermediário
e as mulheres desses homens que podem fazer um retrato falado e depois
ir ate o Rio, com a desculpa de ir visitar os pais, para acabar com o
atirador. Um ciclo que não mais termina a não ser com a
sua paz e com tudo o mais.
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