| Ele
estava todo ferrado no leito da enfermaria do Hospital Público.
Tinha tido uma complicação dessas que ninguém descobre.
Foi definhando até ficar pele e ossos. Aí pegou uma infecção
hospitalar e uma pneumonia. Por falta de um diagnóstico preciso
inventaram que ele tinha uma virose desconhecida que logo alguém
apelidou de Síndrome da Rocinha. Tinha a ver - ele estava todo
invadido por micróbios e sondas contaminadas, não fosse
aqui um país de terceiro mundo. Pensava com lucidez mas não
conseguia falar. Naquele sábado, recebeu a visita de um grupo de
amigos. Sentiu-se personagem central do filme Invasões Bárbaras.
Cada um em volta dizia alguma coisa para anima-lo. Aquelas falsas palavras
estimulantes que não enganam a ninguém e muito menos um
pré-cadáver. Ouviu: "Você está ótimo".
"Vai ficar bom". "Vai sair dessa para melhor". Tem
sempre alguém que fala sem pensar e que lhe disse: "Essa cara
verde ainda vai voltar a ser aquela cara rosada". "Você
está um osso mais vai ficar gordão de novo". "Se
Deus quiser", afirmou uma velhinha com uma Bíblia em baixo
do braço. Alguém pensou alto e ele ouviu: "Pelo menos
o caixão vai ficar menos pesado". Com os olhos esbugalhados,
via à encenação com falta de ar. Pensou: é
a última peça de teatro que assisto. Foi uma dificuldade
para impedir que representantes de todas as religiões chegassem
perto para tentar fazer os seus milagres. "Deixa o cara morrer em
paz"! Berrou um amigo dele que era ateu e meio grosso. "Vão
embora"!. Chega de encher o saco.! Isso aí não tem
mais nem milagre que dê jeito." Conseguiu expulsar os fanáticos
e as últimas esperanças do doente. Em
total fora de hora uma religiosa perguntou ao lado da cama se queriam
que chamasse um padre. Ele deu uma engasgada com saliva. De repente quase
saiu porrada quando dois parentes se desentenderam. "Vocês
não respeitam nem o desgraçado?" Foi outro comentário
infeliz. Uma pessoa gritou: "Não tem uma enfermeira nessa
merda? O cara ta fodido e ainda por cima ta se mijando". Tiveram
que improvisar com uma garrafa de plástico de refrigerante porque
não tinha penico. Botaram o lençol para secar na janela.
Um senhor abanava. "Isso aqui tem mais mosca que remédio",
falou um paciente para uma das visitas. "Não sabia que estava
tão mal", disse alguém chegando com uma caixa de bombons.
Corrigiu: "quero dizer: que não sabia que não estava
em condições de comer." Tentou levar os bombons de
volta. Claro que não deixaram. A caixa foi aberta na hora e cada
um pegou o que pode. Um mais cínico ainda disse olhando para ele:"
Vou comer em sua homenagem. Está uma delícia." "Essa
vida é uma merda," falou uma visita do paciente da cama ao
lado. "Para morrer basta estar vivo. A minha tia estava igual a ele."
"Melhorou?" Perguntou uma senhora. "Que nada. Já
foi enterrada há mais de uma semana." "Olha esse papo
de tragédia aí falou aquele amigo machão. O Jorge
vai ficar bom. Isso é só um susto."Alguém pensou:
pela cara deve ter visto o Drácula. Um garotão sarado disse
entre os dentes, pegando um cigarro: "antes ele do que eu. Era bonzinho
mas era meio chato. Meio mala". Um velhinho levantou a beira da cama
sem nenhuma dificuldade. Um engraçadinho lhe falou e o doente ouviu:
"está treinando vovô para segurar a alça do caixão?"
Cena de horror. O moribundo, aterrorizado, mal podia respirar. Uma senhora,
de preto, pegou com a mão direita um lencinho branco com rendinha
nas pontas e enxugou o canto do olho esquerdo. Dá mais efeito.
Já repararam que ninguém enxuga o canto do olho direito
com a mão direita.? Um cara gordo sentou na beira da cama. Quase
esmigalhou a perna do infeliz. Tocou uma campainha. Um guarda nada gentil
entrou gritando: "acabou a visita! acabou a visita! Um parente pegou
na mão gelada do acamado e lhe disse adeus Jorge. Esse comentário
tirou as suas últimas forças. Ainda ouviu dizerem: "vocês
viram como ele está acabado? Está um trapo." À
saída uma mulher falou para o marido: "essas visitas são
enfadonhas". Ele respondeu: "bota enfadonha nisso. Quem usa
essas palavras é aquela senadora Heloisa Helena". No dia seguinte
voltaram todos para o enterro. Menos o garotão sarado que tirando
uma baforada de um cigarro de fabricação caseira disse com
aquele jeito meio mole:"Já fui ao velório. Não
preciso ir ao enterro." E
ouviu do seu colega de academia:"esse negócio de enterro tá
por fora. Vamos malhar".
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