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sua cela no manicômio judiciário, Hans, o sueco que assassinara
a mulher e o porteiro do edifício onde morara, não cansava
de repetir: -“tinha que ser ele, tinha que ser ele, tinha que ser
ele”.
Hans conhecera Érika há uns três anos em sua terra
natal. Após breve namoro casaram.
Muito pouco sabiam um sobre o outro. Ele, recém-formado em engenharia,
perdera os seus pais e não tinha irmãos. Ela também
era filha única, morava com a mãe, viúva de seu pai
e com o padrasto, com quem bem não se dava. Hans recebeu um convite
de um parente para vir trabalhar numa construtora no Brasil. Em pouco
tempo estavam residindo em Copacabana. Nos meses que se seguiram ficou
claro que ele gostava muito mais dela que ela dele. Era sempre ele que
a procurava. Mantinham uma relação civilizada, fria e sem
conflitos, mas em tudo carente de carinho e amor. Constantemente chegava
em casa e não a encontrava. A praia e saída para compras
ou para conhecer a cidade eram as alegações apresentadas.
Não demorou muito e Érika engravidou. A única pessoa
com a qual se davam era com o porteiro do prédio onde residiam:
um nordestino sempre atencioso e amável que constantemente lhes
prestava pequenos serviços tais como fazer compras, lavar o carro
do casal e levar a criança para pegar sol. O pequeno Hans quanto
mais crescia menos se parecia com o pai. Moreninho, de compleição
baixa e atarracada, em tudo diferençava do casal sueco louro de
olhos azuis. Mais de uma vez pessoas inconvenientes perguntaram se era
adotado. As evasivas de Érika aos carinhos de Hans e sua negativa
a que fosse feito um teste de DNA no menino, concorreram para que a dúvida
se transformasse em certeza e o amor num sentimento de revolta que não
poucas vezes se aproximava do ódio.
Um dia Hans foi demitido pela direção da empresa, que mudara
de dono, sob a justificativa que haviam diminuído os empreendimentos.
Com a cabeça quente, foi para casa mais cedo. Ao chegar encontrou
Érika, enrolada num roupão, conversando com o porteiro na
sala. De nada adiantaram as explicações da esposa de que
o chamara para consertar uma torneira que estava pingando. Hans pegou
o revólver na gaveta e matou os dois. Por sorte a criança
estava na escola. O teste de DNA deu que o menino era filho dele com Érika.
Julgado e condenado, Hans foi estuprado na cadeia e enlouqueceu, sendo
transferido para o manicômio judiciário.
Nunca ficou sabendo que um dos avôs de Érika era filho de
uma sueca com um cearense que conheceu quando fez uma viagem ao Brasil.
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