Durante
o período colonial, a Metrópole não poucas
vezes editava leis e alvarás proibindo corte de árvores,
mais para proteger o monopólio das madeiras estratégicas,
preservadas por lei por serem úteis, principalmente na construção
naval. Outras vezes, a proibição era para apenas permitir
a utilização única dos recursos naturais de
Portugal, como por exemplo, a lei proibindo a extração
do sal de Cabo Frio, para somente se usar no Brasil o fraco sal
lusitano.
Foi com D. João VI que tivemos a primeira lei de proteção
às matas, cujo objetivo primordial era a de preservar a nascente
do Rio Carioca que abastecia toda a cidade da preciosa linfa. Padre
Perereca, em suas “Memórias para servir à História
do Reino do Brasil, no volume 2, deu notícia circunstanciada
desta notável lei:
“Por decreto de 9 deste mesmo mês de agosto (de 1817),
El-Rei Nosso Senhor, tendo considerado às representações
que tem subido à sua real presença, do procurador
do senado da Câmara desta Côrte, e de outras pessoas,
a quem Sua Majestade foi servido ordenar, que examinassem as causas,
que concorrem para a diminuição da abundância
de água, que nestes últimos anos tem sofrido a cidade:
e querendo o mesmo augusto senhor das providências, que exige
um objeto de tanto interesse, e necessidade pública, foi
servido coutar de madeiras, lenha, e mato todos os terrenos do alto
da serra, que estão em roda das nascentes do Rio Carioca,
e ao longo do aqueduto até o Morro de Santa Teresa, ficando
igualmente coutado o espaço de três braças de
terreno (6,60m) de cada um dos lados do mesmo aqueduto, determinando,
que os que contravierem, cortando árvores, lenha, mato, ou
fazendo carvão, ficarão incursos nas penas dos que
cortam árvores nas Coutadas Reais. Determinou mais, que o
conselho da Fazenda, mandando efetuar a coutada, e suspender todo
o corte, derrubada, ou cultura do terreno, proceda fazê-lo
demarcar: e averiguando quais sejam os sítios de maior precisão,
para se conseguir a conservação dos mesmos nascimentos
de água, os fará logo avaliar, para serem pagos aos
seus donos, e que se incorporem nos próprios da Coroa. Para
as demarcações e mais atos judiciais será convocado,
para assistir, e poder requerer, o procurador do Senado da Câmara;
e a vigilância, e guarda da mesma coutada, El-Rei Nosso Senhor
incumbe à Câmara da cidade”.
O local hoje corresponde ao bairro de Santa Teresa, que somente
surgiu como tal depois de 1850. A lei não foi obedecida,
pois durante o primeiro e segundo Impérios a falta dágua
retornou como uma terrível regra e por muitos verões
faltou a preciosa linfa aos cariocas. Só com D. Pedro II,
em 1850, é que foram tomadas efetivas providências
para preservação das nascentes, com a desapropriação
das fazendas de café do Alto da Boa Vista e ulterior replantio
das matas pelo Major Archer, tarefa hercúlea iniciada depois
de 1861 e que perdurou por todo o final do século XIX. |
| O
primeiro morro do Rio de Janeiro a receber um nome cristão
foi o que hoje conhecemos como Corcovado. Ele se chamou originalmente
“Pináculo da Tentação”, e quem
assim o batizou, foi, com toda certeza, o cartógrafo florentino
Américo Vespúcio ainda na viagem de reconhecimento
em 1502, pois é de um mapa desta data sua primeira menção.
Pináculo da Tentação é uma alegoria
do Novo Testamento. Foi o pináculo onde o Demônio conduziu
Cristo, tentando-o com os pecados do mundo. O nome não pegou,
sendo o morro depois rebatizado pelos portugueses para o topônimo
atual devido à corcova posterior que possui.
Coincidência ou não, na metade do século XIX
o padre francês salesiano Pierre Marie Bos, em viagem ao Brasil,
sugeriu em seu diário que o Corcovado seria o pedestal perfeito
para a estátua do Filho de Deus. Nessa época, o acesso
ao alto do morro já era conhecido. Desde 1822, o Príncipe
D. Pedro o escalara, deixando seu monograma numa árvore.
Muitos outros o fizeram depois, até que em 1882, os engenheiros
Pereira Passos e Teixeira Soares conseguiram a concessão
para construir um ramal ferroviário do Cosme Velho ao alto
do Corcovado, sob o sistema Riggenbach, com cremalheira denteada
sobre um trilho central para dar maior segurança à
composição. Inaugurada em outubro de 1884, logo tornou-se
a grande atração da cidade, sendo a primeira ferrovia
turística das Américas. Com uma extensão de
3.775m, uma locomotiva a vapor conduzia até dois vagões
ao topo. No meio do caminho, nas Paineiras, foi construído
um hotel turístico, onde, neste século, se hospedaria
o bailarino russo Wlasclaw Nijinski. No pico, a 704m de altitude,
foi construído um mirante de ferro, logo batizado para “Chapéu
de Sol”. Em 1910 esta ferrovia foi eletrificada, aliás,
a primeira experiência do gênero no país.
A mania de se erguer monumentos no alto de penhascos vinha do mundo
clássico e tornara-se algo muito desejado no Romantismo,
onde a paisagem conferia às estátuas emoções
que a frieza da pedra ou metal nos impedia de passar. Já
em 1894, houve quem sugerisse o erguimento de um monumento à
Cristóvão Colombo no Pão de Açúcar.
Em 1912, com a construção do bondinho da Companhia
Caminho Aéreo Pão de Açúcar, voltou-se
à idéia, agora não mais de Colombo, e sim de
uma enorme imagem de Cristo. A idéia arrefeceu, mas não
morreu. Em 1918, sugeriram novamente a ereção de uma
imagem à Cristo, para as comemorações do Centenário
da Independência do Brasil, que seria levantada no morro de
Santo Antônio. A idéia foi comprada pelo Governo, só
que optou-se mais corretamente pelo Corcovado, tendo o Presidente
Epitácio Pessoa entrado em acordo com a Arquidiocese do Rio
de Janeiro para a consecução da idéia. Em 1920,
Pessoa transferiu para o domínio da Arquidiocese o pico do
Corcovado, comprometendo-se a colaborar com a obra melhorando os
acessos e fornecendo uma série de subsídios. Foi então
realizado um concurso público de projetos, vencido pelo arquiteto
brasileiro Heitor da Silva Costa. O projeto vencedor, de um Cristo
carregando a Cruz, era bastante calcado no Cristo de Mendoza, na
Argentina. Motivos financeiros retardaram a iniciativa por alguns
anos. Em 1922, o Governo instalou uma enorme antena de rádio,
a primeira do país, em forma de cruz, no alto do Corcovado,
para proceder à primeira experiência com radiofonia
durante a Exposição Internacional do Centenário
da Independência do Brasil. Silva Costa, ao observar a dita
cruz, pensou em alterar seu projeto, dando ao próprio Cristo
uma forma cruciforme, bem mais legível à distância
que o projeto original.
Aprovados
os desenhos preliminares, foram feitos vários esboços
da imagem, no que muito colaborou o artista Carlos Oswald, que desenhou
a imagem em vários ângulos e insolações
possíveis. A idéia original era fundi-lo em bronze,
no que foram logo dissuadidos, temerosos de que acontecesse no Brasil
o mesmo que ocorrera na Rússia, quando o governo soviético
após a Revolução Bolchevique mandou fundir
todas as estátuas metálicas de santos para reaproveitar
os metais. Decidiu-se então que a imagem, com 30m de altura,
seria feita em concreto armado. Em 1923, os planos foram levados
à Europa, onde, na França, foram calculados pelo escritório
de engenharia de Victor Caquot, famoso engenheiro, especializado
em estruturas de grande porte. O Cristo teria doze pavimentos internos
e estrutura suficientemente resistente para suportar um tufão
de 250km/h, o que não ocorre no clima do Rio de Janeiro.
Aproveitou-se
a ida de Silva Costa à França, para que o mesmo escolhesse
e contratasse um grande escultor para confeccionar as mãos
e o rosto da imagem. A escolha recaiu no artista francês Paul
Landowski, escultor muito renomado em França, que utilizou
como modelo para a estátua as formas da brasileira Margarida
Lopes de Almeida, ela mesma artista plástica e tida como
possuidora das mais belas mãos do Brasil. Silva Costa igualmente
aproveitou para se inteirar das novas tendências estéticas
européias. Homem inteligente, tomou conhecimento do estilo
art-déco, surgido oficialmente em 1925, em Paris, na grande
Exposition des Arts Decoratifs, cujo nome serviu de base ao batismo
do novo estilo, o qual propunha uma linguagem geométrica,
apropriada para as formas de concreto armado. Foi a estátua
de Cristo alterada para absorver as novas tendências, o que
Silva Costa realizou com rara felicidade.
O
dinheiro para toda a obra foi obtido integralmente no Brasil através
de doações voluntárias coletadas em todo o
território nacional, em enorme campanha promovida pela Arquidiocese
do Rio de Janeiro. Cada brasileiro podia contribuir com mil réis,
quantia propositalmente baixa para que todos, ricos e pobres, pudessem
participar dessa obra. A coleta durou dez anos e conseguiu-se dinheiro
mais que suficiente para todos os trabalhos.
Enormes
formas em gesso e concreto foram levadas à Niterói,
onde foram feitas as partes em concreto armado, que deveriam subir
por bocados ao Corcovado, aproveitando-se ao máximo o trem
existente. Foram encarregados da obra os engenheiros Pedro Vianna
da Silva e Heitor Levy. Este último, cedeu sua chácara
para os trabalhos de moldagem. Levy, que era judeu, ficou tão
envolvido com a obra que converteu-se ao cristianismo e colocou
os nomes seu e de sua família num vidrinho que misturou com
a massa de concreto do coração da imagem. A montagem
durou de 1926 a fins de 1931, não ocorrendo acidente algum
durante as obras. Primeiro montou-se a estrutura de concreto armado,
colocando-se sobre ela as partes artísticas com a forma da
imagem. Foi montada da cabeça para os pés. Só
a cabeça foi formada com cinqüenta pedaços distintos.
Sobre esta forma, colocou-se uma malha metálica onde posteriormente
se cobriu com pedaços triangulares de 03cm de lado em pedra
esteatita verde (pedra sabão), numa homenagem às obras
de Aleijadinho feitas com este material em Congonhas do Campo.
A
Revolução de 1930 atrasou a inauguração
da obra, finalmente ocorrida com grandes festas a 12 de outubro
de 1931, dia da Padroeira do Brasil, Nossa Senhora da Conceição
Aparecida. Contou a solenidade com a presença do Presidente
Getúlio Vargas (que era ateu), ministros, autoridades civis
e militares, representantes do Papa e o Cardeal-Arcebispo D. Sebastião
Leme, que fez virulento discurso político, bastante ríspido,
quase provocando incidente com o Presidente Vargas, que se sentiu
ofendido. Na mesma noite foi inaugurada a iluminação.
Foi montado no Corcovado aparatoso equipamento de rádio para
tal, pois o inventor Guglielmo Marconi ofereceu-se para ligar as
luzes da estátua acionando uma chave de poderoso equipamento
de rádio situado em Gênova, na Itália, onde
se encontrava. Na hora aprazada, o equipamento falhou e a estátua
foi acionada por um suboficial do Exército, o futuro escritor
católico Gustavo Corção.
Algumas
das dimensões da estátua ficaram conhecidas e muitos
ainda hoje as sabem de cor e salteado. De altura, o Cristo possui
30 metros e três centímetros. Com a base, que mede
08 metros e abriga a capela de Nossa Senhora da Conceição
Aparecida, fica a imagem com 38m e três centímetros.
De envergadura, possui o Cristo 29, 60m, sendo que o braço
esquerdo é imperceptivelmente menor 40cm, para dar maior
estabilidade à imagem. A cabeça de Cristo está
inclinada 33cm para a frente e sua coroa servia como pára-raios.
Em 1942, remodelaram os acessos à imagem, surgindo uma estrada
de cimento que permitiu o acesso por automóvel ao alto do
Corcovado. Demoliu-se na ocasião o mirante Chapéu
de Sol, por estar já todo enferrujado e refez-se a escadaria
de acesso, que passou a ter 220 degraus, do trem à imagem.
Por cinqüenta anos a estátua nunca foi lavada integralmente,
o que lhe conferiu uma tonalidade cinzenta, até que uma restauração
em 1980 devolveu-lhe a cor primitiva. Em 1965, o Papa Paulo VI inaugurou
a nova iluminação, desta vez realmente acionada por
uma onda de rádio oriunda de um equipamento na Itália.
Em
1979-80, passou a imagem por uma restauração em regra,
corrigindo-se danos provocados ao longo dos anos por raios e do
desgaste natural do material, sendo repostas muitas pastilhas de
revestimento que se haviam desprendido e reforçadas as estruturas.
Foram relocados os pára-raios e antenas, sendo melhorada
a iluminação. O papa João Paulo II visitou
o Cristo em junho de 1980, tendo lá de cima abençoado
a cidade. Dez anos depois, passou a estátua por nova restauração,
haja vista que a estrutura de sua cabeça estava se desprendendo!
Motivo
de filmes e até de polêmicas, a imagem de Cristo no
Corcovado foi uma das mais felizes concepções plásticas
obtidas em monumentos do gênero. Muito copiada, nenhum plágio
superou o original, mesmo os realizados pelo próprio Silva
Costa em São João Del Rei, Minas Gerais. A conjugação
das formas do morro com as do monumento foi muito feliz. A concepção
artística da imagem não envelheceu, permanecendo atual
até nossos dias. Visitada por milhões de turistas
de todo o mundo, permite o mirante do Corcovado visão completa
da cidade e Baía de Guanabara, abarcando desde o Dedo de
Deus, em Magé à Lagoa de Maricá, e dali toda
a cidade do Rio de Janeiro, nas zonas norte, central, sul e oeste.
O
monumento tornou-se não só símbolo da cidade,
como de toda uma nação. |